
Já sobram poucos dos que eram já adultos em 1929, o ano em que se iniciou a "Grande Depressão" que se viria a arrastar e a impor as suas consequências por mais de uma década até à II Guerra Mundial. Nessa época, havia uma euforia nos mercados bolsistas que se propagou à população, pessoas de todas as classes sociais, ricos e pobres, sapateiros e homens de negócios, jogavam na bolsa, muitos à custa de empréstimos. Faziam-se fortunas de um dia para o outro e parecia que todos poderiam ficar abastados, era o "sonho americano". A esta época de entusiasmo seguiu-se um período de instabilidade, com subidas e descidas nos mercados de acções, que viria a tornar famoso o dia 29 de Outubro de 1929, a "Terça-feira Negra", o início da "Grande Depressão". Nesse dia, ameaçados pelas flutuações do mercado e pelos rumores de uma possível queda iminente da bolsa, todos os accionistas venderam ao desbarato todas as acções que tinham, fazendo dos bocados de papel que eram a sua fortuna isso mesmo, bocados de papel. Fortunas, umas incalculáveis, outras não, perderam completamente o seu valor, um sem número de pessoas ficou na ruína.
Depois do "crash" de 1929 os bancos, alheios a qualquer responsabilidade (já na altura havia falta de políticas e regras pare este tipo de negócios) e como seria de esperar, continuaram a exigir que fossem pagos os empréstimos que tinham sido feitos. As pessoas, agora sem um tostão, não tinham como pagar. Incapazes de fazer face aos compromissos efectuados iniciou-se uma espiral de falências e penhoras, empurrando milhões de pessoas para o desemprego e para fora das suas casas. Nos Estados Unidos 25% da população activa ficou sem emprego e, claro está, também não tinha salário. Sem dinheiro para gastar, um círculo vicioso que se viria a arrastar mais de uma década foi iniciado. Quanto mais pessoas estivessem desempregadas mais iriam ainda ficar, pois não tendo dinheiro para comprar os bens dos outros, mais cedo ou mais tarde esses últimos viriam também a falir pois não tinham como fazer negócio.
A miséria instalou-se, de Wall Street espalhou-se para todos os continentes, poupando apenas algumas economias socialistas que eram estanques à crise capitalista. Milhões de desempregados e suas famílias foram viver para bairros de lata, fome, sofrimento e violência seriam o dia-a-dia de milhões de cidadãos do mundo por anos a fio. A crise só viria a ter o seu ponto final após a II Guerra (um conflito terrível, presente apenas na memória de alguns e não mais do que uma imagem na televisão para a maioria), quando os mais díspares (ou não) interesses se defrontaram até se estabelecer uma "nova ordem" mundial.
É para mim óbvia a semelhança entre o que se passou há 80 anos e o que se passa agora. Os empréstimos, as quedas na bolsa (que segundo consta, foram já maiores este ano que em 1929), as penhoras e as falências só agora começaram. Será, muito provavelmente, uma questão de tempo até que venhamos a sentir na pele as consequências desta crise.
Tento, sem êxito, explicar o meu ponto de vista às pessoas que, cépticas na sua maioria, ouvem a minha história com um sorriso paternalista, colocando esta minha ideia nas margens do estapafúrdio. Quando falo num desemprego descontrolado, com flutuações incompreensíveis de preços, fome e miséria quase transversais em todos os países industrializados dão-me uma pancadinha nas costas e sugerem-me que veja menos filmes. Nada que não estivesse à espera!
É natural, acho eu, este cepticismo. Como disse no início, já são poucos aqueles que viveram com olhos críticos o período da "grande depressão" e da II Guerra. Todos, como eu, viveram um período de prosperidade, todos convencidos que o mundo capitalista era um local seguro em que a propaganda, a censura e a escravatura tinham lugar apenas nos livros de História. É óbvio que assim não é!
Tenho medo do que será do mundo, quando sociedades inteiras de cépticos se virem confrontados com a crise real e verdadeira. Temo pela desorganização e pelo descontrolo.
Espero sinceramente estar enganado, que esta crise não chegue às pessoas, que o desemprego não suba, que não se inicie a violência, as pilhagens, a fome e a miséria generalizada. Espero que não se inicie a guerra!
Infelizmente a minha consciência diz-me o contrário, já aconteceu no passado e vai certamente acontecer no futuro. A História, quando se repete, não escolhe os que se pensam esclarecidos ou cépticos, atinge todos, para o bem ou para o mal!
Espero não estar isolado, mas se estiver e assim continuar, tanto melhor! Serei apenas um pessimista, antes isso que a II Grande Depressão!
Mas se for como digo, espero não estar sozinho! Que haja quem combata a meu lado, pois é o antecipar dos males que faz de nós humanos, que nos permite lutar por um mundo melhor para nós e para os outros!
"Hasta la victoria, siempre!"