
Muitas pessoas perguntam contra quem é que nos devemos revoltar e o que é que podemos fazer? Esta última pergunta vem normalmente associada a um certo tom de retórica, como quem diz - não é possível fazer nada!
Este sentimento de impotência que assola as pessoas, só me faz lembrar o "tempo da outra senhora"! Nessa altura, como as conversas subversivas fora da segurança do lar e os ajuntamentos eram proibidos, as pessoas não sabiam que os outros também sabiam que o problema estava no regime (esta última oração plagia um filme que vi no outro dia). Este desconhecimento da opinião dos outros, tornava a revolta obviamente mais difícil.
É curioso constatar que, apesar de toda a gente saber que toda a gente sabe que o problema está no regime, a revolta continua a ser difícil.
Muita gente diz que o problema é que existem muitas pessoas pouco autónomas, com pouca motivação para trabalhar. Apontam muitas vezes o exemplo dos nórdicos e dos regimes anglo-saxónicos. No entanto, tenho ideia que estes também se encontram em crise. Escrevi tenho a ideia, mas na verdade tenho a certeza! Se a causa da crise fosse a falta de liberalismo e o incentivo à autonomia - que é o paradigma americano, por exemplo - não deveriam estes países estar a crescer? Os mais obstinados talvez dirão que a culpa é nossa, dos países do sul.
Outras pessoas dizem que andamos a viver acima das nossas possibilidades. Tenho dificuldades em perceber como é que as pessoas dão cabo do país a fazer empréstimos para comprar LCD's e a viajar para a Riviera Maia. No entanto, como não estou familiarizado com os poderes ocultos da CETELEM, hesito. Quando muito, essas famílias poder-se-iam destruir a si próprias e, se nenhumas pagarem pelas férias, habilitam-se a destruir a CETELEM. Já quando é o governo, em nome de todos os cidadãos, a pedir empréstimos intermináveis a juros altíssimos - mais de 7%, por acaso - cheira-me que já estamos mais próximos do problema. Não estará o Estado a viver acima DAS NOSSAS possibilidades? Não deveria ser o Estado a poupar? Em vez disso contrai empréstimos sucessivos para "se financiar". Algo nisto não soa bem, como já repeti aqui várias vezes.
Os agiotas, por seu lado, passaram décadas a emprestar dinheiro por tudo e por nada, fabricando uma irreal abundância. Qualquer pessoa que empreste dinheiro a um bêbado ou a um drogado desconhecido, sabe que existe pouca probabilidade de o recuperar. Os bancos, quando emprestaram dinheiro a pessoas que tinham poucas probabilidades de pagar - a juros altíssimos - não correram, ao contrário do que seria de esperar, absolutamente risco nenhum. Quando toda a banca realizou empréstimos arriscados no imobiliário, partindo do princípio que os preços das casas iam subir para sempre, chamaram-lhe "bolha imobiliária/sub-prime". No entanto, ao contrário de quem empresta dinheiro a um bandido, o buraco dos bancos foi pago por nós.
Ou seja, além de continuarmos a pagar juros altíssimos para continuarmos a ser "financiados", ainda temos que tapar o buraco dos negócios ruinosos que a banca faz. A este último fenómeno, chamam-lhe "salvar o sistema".
Já nem vou falar (já deu e dará ainda origem a outros posts) no processo de criação de dinheiro. No sistema de bancos centrais actual, para obter dinheiro os bancos imprimem e o povo trabalha. Parece-vos haver aqui alguma disparidade? Disse que não ia falar mas falei, e desta vez usei eu da retórica.
Falta ainda discutir o facto de o estado pedir dinheiro emprestado para investir em negócios que, em grande parte, são detidos por proeminentes políticos que saltarilham entre os respectivos cargos e negócios, investindo no fundo, neles próprios!
Infelizmente, a única coisa que as pessoas têm sido capazes de fazer para mudar o rumo das coisas, é votar no maior partido da oposição. Com ciclos que nunca ultrapassaram os 10 anos, os lobbys têm crescido, potenciando todos os problemas que aqui descrevi.
A solução passa por uma revolta contra a classe política em geral e contra o sistema financeiro que suportam. Tal coisa exigirá greves, manifestações como a do último sábado, grandes sacrifícios e privações - como qualquer revolução que seja verdadeira!
Infelizmente, há muito medo...